quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Vozes

O tom mercurio das luzes da cidade denunciam a chegada da noite. Olhos se espreitam pelo ofuscante brilho das sirenes e dos faróis. Passadas largas, sem conteúdo, sem destino, e as mãos balançam junto ao corpo.

Não há vozes externas. O cemitério de prédios, as cruzamentos negros que se encarregam de guiar os passos tecem o seu conteúdo monótono.

Deserto aconchegante. Lar doce lar, assim nomeamos. Apenas um lar.

[...]

Os passos seguem firmes, para lugar algum, guiados pelos rumores, pelos tendenciosos pensamentos conflitantes. Assim propaga-se a realidade.

Apenas uma confusa e ramificada teia de vozes internas.


Verde, amarelo, vermelho... Verde, amarelo, vermelho. Motores que vem e vão, passos que se dispersam, e vozes, muitas vozes naquele deserto aconchegante. Mas os ouvidos os ignoram. Apenas ouvem-se as vozes internas.

"A coisa certa a se fazer ... Não seja quem você é... Os lábios estão mentindo para não machucá-lo... Os abraços, os beijos, as carícias não são reais... são fruto de uma mentira que em breve se extinguirá..."


Vozes malditas elas são. Apenas uma confusão qualquer, apenas uma esperança precoce e tudo estará acabado.


Verde... amarelo.... vermelho.

[...]

As luzes de natal estão expostas. Brilham, apagam, e reaparecem. O velho cemitério de prédios e casebres continua intacto, em movimento, mas os olhos se espreitam, firmes, impacientes, para um deserto aconchegante. As pessoas seguem o ritmo acelerado de suas próprias vidas, mas as mãos juntas ao corpo, agora se levantam, esfregam aquela face tão séria, tão impassível...

As vozes continuam.... vozes dos mortos, sussurros diabólicos que levam-no à loucura.

"... brincando com seus pensamentos... Morra por quem você ama... Deixe para trás todas as cicatrizes... Deixe de ser quem você é... Sacrifícios.... Sacrifícios... em vão".

Amarelo.... Vermelho...

Minutos e horas, segundos e momentos. Apenas tempo ao tempo. Apenas o tempo necessário para se morrer por dentro, e de sua lápide cinzenta, surgir uma pessoa que nunca será o que você deveria ser.

Seja quem você não é. Seja honesto e íntegro para morrer pela pessoa que mais ama, pois quando o sinal mudar, e seus passos seguirem a longa estrada negra, não haverá mais volta, e suas mãos que tanto balançam junto ao corpo, serão apenas mãos que irão proteger os seus olhos dos faróis, das sirenes, mas não haverá mais volta...

As vozes irão cessar, mas não a sua. A sua voz irá ecoar eternamente, profanando tudo o que deixou para trás, e para sempre será a voz que você deixou ocultar, por tornar-se uma pessoa que jamais conseguira ser.

Uma pessoa real para ela.

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