A roda da fortuna está girando, girando e girando em desencontro com esse novo amanhecer. O céu pálido, o frescor do ar, a brisa primaveril e o cheiro do orvalho da manhã são apenas detalhes no cenário que agora se desenha.
Veja... o cenário aos poucos se modifica, e em constante modificação estará. Afinal, a roda da fornuta continua a girar.
Agora repare naquele rapaz.
Os seus olhos parecem estar fora de foco, e mesmo as lágrimas parecem não encontrar a sintonia perfeita. Passado alguns instantes, sua face eclodirá em um desconexo movimento. Será um misto de dor, de sofrimento. Será terrível, e para uma pessoa que passa a observar a cena, a imagem será apenas a amostra de um sofrimento. Mas o sofrimento é apenas parte do cenário que se modifica.
O semblante aos poucos se tornam reais. Os dentes agora estao serrados, mordendo o vazio, e os punhos se fecham. As veias se dilatam, e sua respiração se torna cada vez mais ofegante. Sua garganta sufoca o horror que sua alma está emanando. Cólera. Ira.
Repare bem, ele irá se ferir, expurgará todo o ódio que existe dentro de si, e como já mencionado, não será bonito de se ver. Quando se der conta, terá ferido a si próprio, e pior ainda, ferirá quem a tantou amou.
Roda da fortuna. Girando, sem controle, sem aviso se onde irá parar...
Os seus olhos agora encontram-se com belos olhos. São olhos da mulher de sua vida. E ela está em prantos. Ferida pelo homem que tanto ama.
Olhe o cenário. Em nenhum momento houve contato físico. Nunca fora uma dor física, pois esta, jamais existiu. Eram palavras que a machucavam. Era o ódio despejado, e a loucura que acometera o rapaz que a desdobrava em prantos.
Ele jamais deixou de amá-la, e o sentimento era recíproco. Ela irá se distanciar, por uma distância desconhecida, por trilhas inexistentes, e por um tempo que nem sequer a roda da fortuna poderá demonstrar.
A loucura e a dor de perder a mulher mais sincera, bela e gentil o derrubam. Suas pernas seguem firmes, como rochas, mas sua alma padece, e ele está caído. Em algum lugar, em algum pensamento, ele está caído, e assim permanecerá.
Horas depois, a imagem de um homem derrotado o assombrará no espelho, e ele desejará que a roda da fortuna gire novamente. Mas, meu caro, preste atenção, estas são cicatrizes que esse homem deverá levar consigo, e o seu fracasso como homem, será também o espelho de sua própria destruição.
Enojado ele irá sangrar sozinho. Pois esse é o seu karma, o seu fardo, o seu prêmio na roda da fortuna.
Suas escolhas selaram seu próprio destino.
O seu desespero apenas mostra o quanto a ama. Por mais que ele se negue em acreditar, ela o ama. O ama intensamente, e apenas quer o seu bem. Mas um homem caído, sempre será um homem caído, e com o coração partido, ele usará de seu desespero para romper todo o amor que existe entre dois.
Não é por mal, entenda.
Ele não age na intenção de ferir. Mas ele está ferido. Ela o deixou.
No fundo, ele sabe que a escolha dela era se afastar do homem que tanto ama, e o quanto a machucou nos ultimos tempos.
No fim do dia, suas pernas irão ceder, e de joelhos, irá amargar suas própris lágrimas. O desprezo próprio tomará conta de cada parte de seu corpo.
Essa é a sua roda da fortuna. Girando, e girando. Apenas girando para que ele possa aos poucos se autodestruir.
Sangrar sozinho se tornaria para ele, o jeito mais rápido de aceitar que o único responsável por afastar a mulher que mais amou e ama nesse mundo é apenas ele. É apenas a loucura de um homem que acabou de perder a pessoa mais importante que já existiu em sua vida, e que por suas escolhas, as escolhas de um homem ferido, ela jamais estará em seus braços novamente.
A cena irá se modificar, e ele continuará amando aquela mulher, e no fundo, apenas desejará estar morto.
Apenas entenda.
Ele está morrendo, aos poucos, cedendo aos desejos incontroláveis de sua insanidade.
A roda da fortuna irá girar novamente, e caído ele permanecerá. Não haverá mais forçs para se reerguer, nem sequer existirá um ponto de esperança.
Apenas a pequena esperança de que a dor possa sumir, e enfim, ele possa dizer para si mesmo, que fez tudo por amor, e agiu por amor. Mas apenas pelo amor que eternamente sentirá por aquela mulher.
Pois a verdade seja dita, aquele semblante de dor, de ira, de medo, é apenas parte da morte de seu amor próprio.
Amor que por sua própria pessoa não mais existirá, mas que manterá intocável pela bela mulher, e que por decisões erradas, jogou-a nos braços da roda da fortuna.
E ela, a roda da fortuna... continuará a girar, e este cenário jamais se modificará.
Pois o destino está selado, e a roda da fortuna definiu em linhas opostas, os caminhos de dois amantes.
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